Um pouco de conhecimento e muita confiança: Novo estudo revela a relação entre conhecimento, confiança e atitudes face à ciência

Nota de imprense: Um novo estudo, que acaba de ser publicado na revista Nature HumanBehaviour, desvenda a intrincada relação entre conhecimento, confiança e atitude face à ciência. O estudo, conduzido por uma equipa multidisciplinar de cientistas liderada pela investigadora do LIP Joana Gonçalves-Sá, apresenta provas convincentes de que tanto o excesso de confiança como as atitudes negativas em relação à ciência atingem o seu máximo nos níveis intermédios de conhecimento.

Há muito que o excesso de confiança é reconhecido como um problema fundamental na apreciação e tomada de decisão. Segundo Cristina Mendonça, uma das autoras do novo estudo, “O excesso de confiança surge quando os indivíduos avaliam subjectivamente a sua competência como sendo maior do que os seus conhecimentos objectivos. Investigação anterior demonstrou que erros de calibração na representação interna de competências podem ter consequências graves, mas a forma de avaliar esse desfasamento está longe de ser trivial.” No caso do conhecimento científico, o excesso de confiança pode ser particularmente significativo, uma vez que a falta de consciência da própria ignorância pode ter impacto nos comportamentos, pôr em risco políticas públicas e até prejudicar a saúde.

No estudo hoje publicado, os investigadores examinaram quatro grandes inquéritos realizados aolongo de 30 anos na Europa e nos EUA e procuraram desenvolver uma nova métrica de confiançaque fosse indirecta, independente de escalas e aplicável em diversos contextos.

A equipa de investigação usou inquéritos com o formato “Verdadeiro”, “Falso”, “Não Sei” e utilizou o rácio entre asrespostas incorrectas e as respostas "Não sei" como uma métrica do excesso de confiança, considerando que as respostas incorrectas poderiam indicar situações em que os inquiridos acreditavam saber a resposta mas estavam enganados, demonstrando excesso de confiança. Nas palavras de Cristina Mendonça: "Esta métrica tem a vantagem de ser fácil de replicar e de não exigir que os indivíduos se comparem com outros nem que avaliem explicitamente o seu grau de confiança.”

Os resultados revelaram duas conclusões fundamentais. Em primeiro lugar, o excesso de confiança tende a crescer mais rapidamente do que o conhecimento, atingindo o seu máximo em níveisintermédios de conhecimento. Em segundo lugar, os inquiridos com conhecimentos intermédios eelevado grau de confiança também apresentaram as atitudes menos positivas em relação à ciência.

Segundo André Mata, um dos autores do estudo: “Esta combinação de sobreconfiança e atitudes negativas face à ciência é perigosa, pois pode levar à disseminação de informação falsa e teorias da conspiração, em ambos os casos com grande confiança.” Para validar as suas conclusões, os investigadores desenvolveram um novo inquérito, analisaram quantitativamente o trabalho de outros colegase utilizaram duas métricas directas e não comparativas de confiança, que confirmaram a tendência de que a confiança aumenta mais rapidamente do que o conhecimento.

As implicações destes resultados são de grande alcance e desafiam os pressupostos convencionais sobre estratégias de comunicação científica. De acordo com Joana Gonçalves-Sá, a coordenadora do estudo, "a comunicação e a divulgação científicas dão frequentemente prioridade à simplificaçãoda informação científica para públicos mais vastos. Embora a apresentação de informações simplificadaspossa oferecer um nível básico de compreensão, também pode levar a um aumento do excesso de confiançaentre aqueles com algum (embora pouco) conhecimento. Há um senso comum de que ‘um pouco de conhecimento é uma coisa perigosa’ e, pelo menos no caso do conhecimento científico, pode bem ser o caso".

Assim, o estudo sugere que esforços destinados a promover o conhecimento, se não forem acompanhados por um equivalente esforço para transmitir uma certa consciência do muito que fica porcompreender, podem ter efeitos imprevistos. Também sugere que intervenções devem ser dirigidas a indivíduos com conhecimentos intermédios, uma vez que estes constituem a maioria da população e tendem a apresentar as atitudes menos positivas face à ciência.

No entanto, os investigadores alertam para o facto de o estudo não implicar causalidade, de terem sido observadas diferenças individuais e culturais e de a métrica de confiança poder não sergeneralizável a temas fora do conhecimento científico.

De um modo geral, este documento apela a uma maior exploração de esforços interdisciplinares ede métricas integradoras que possam medir com maior exactidão tanto o conhecimento como aconfiança.

The research paper, titled "Intermediate levels of scientific knowledge are associated with overconfidence and negative attitudes towards science" is available online in Nature Human Behaviour at https://www.nature.com/articles/s41562-023-01677-8 with DOI: 10.1038/s41562-023-01677-8 and can be made freely available by the authors via a request to spac@lip.pt. It was published on 14.09.2023. Nature also decided to highlight this study in a Research Briefing. __________________________________________________________________________________________

About the researchers:

The study was conducted by a multidisciplinary team of researchers led by Joana Gonçalves-Sá. Joana Gonçalves-Sá is the Coordinator Investigator of SPAC-LIP, and an ERCgrantee. This study, which started at Nova SBE, resulted from a collaborative effort from the three first authors, Simone Lackner, Frederico Francisco, and Cristina Mendonça, who have backgrounds in Neuroscience, Physics, and Psychology, respectively. Mata is an Auxiliary Professor at Faculdade de Psicologia, Universidade de Lisboa.
This study was partially funded by Welcome DFRH WIIA 60 2011 and ERC-Starting Grant FARE853566, both to JGS. The funders had no role in study design, data collection and analysis, decision to publish or preparation of the manuscript.
Contacts: Joana Gonçalves-Sá, LIP (Coordinator of the study), joanagsa@lip.pt Catarina Espírito Santo, LIP (head of communications), catarina@lip.pt www.lip.pt


14 de Maio de 2023


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